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Dados, dashboards e borboletas (Felipe Blank)

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O que acontece quando seu instinto diz uma coisa e os dados dizem outra?

A gente não muda o mundo com uma planilha. A gente faz isso com instinto. Com coragem. Eu sei que isso soa mal em 2026. Soa como romantismo ou como desculpa pra não medir nada. Mas me deixa contar uma história.

Em 2010, eu e meu sócio criativo Ken Kragen (organizador de We Are the World) recebemos um convite: salvar vidas. Havia uma guerra silenciosa acontecendo nos Estados Unidos. Menos de 10% das mulheres americanas sabiam que a doença cardíaca era a principal causa de morte entre elas. Não câncer. Não violência. O coração. E ninguém estava reagindo na velocidade que o problema exigia.

A American Heart Association tinha dados. Muitos dados. E o caminho óbvio era usar esses dados: fatos duros, blast de emails, “celebridades” repetindo estatísticas em frente à câmera, tendas em praças públicas gritando números. Uma campanha tradicional, mensurável, segura.

Eu e Ken olhamos pra tudo isso e pensamos: “não“.

O risco era gigante. O preço a pagar não seria vendas baixas, mas vidas perdidas. Poderíamos seguir o caminho óbvio e aceitar uma possível falha de forma segura. Ou confiar no que sentíamos. Escolhemos confiar. Não porque os dados estivessem errados. Mas porque dados não salvam vidas. Dados informam. O que salva vidas é quando alguém sente que a guerra é dela.

Convidamos mulheres comuns, não celebridades, a pintar o rosto de vermelho. A camuflagem de combate. O chamado à luta. Fomos de menos de 10% de reconhecimento para mais de 50%. Milhares de vidas salvas com um pouquinho de tinta. E nenhum dashboard previu isso. Nenhum modelo sugeriu mulheres com o rosto pintado de vermelho como estratégia de saúde pública. Os dados teriam dito: use fatos. Use autoridade. O instinto disse: use verdade. Use emoção. Use coragem. Existe uma diferença fundamental entre os dois. Dados olham para o passado. Eles registram o que as pessoas fizeram, o que funcionou antes, o que o mercado já absorveu. São um retrovisor precioso. Mas você não dirige olhando só pra trás. Instinto é outra coisa. Não é achismo. Não é ego. É inteligência comprimida. São anos de decisões, erros, padrões reconhecidos, salas de reunião, projetos que funcionaram e projetos que morreram. É o que um jogador de beisebol usa pra rebater uma bola a 160km/h: ele não vê a bola chegar. Ele aprendeu onde ela vai estar. E eu sei que não é fácil. Não é pra ser. Ir contra dados e dashboards pode ser como navegar sem bússola. Mas nenhuma bússola substitui o farfalhar das borboletas na sua barriga. Quando tudo clica. Quando você diz: “é isso“.

Hoje, ficou ainda mais urgente. Vivemos num momento em que a IA consegue processar mais dados do que qualquer equipe humana jamais conseguiu. Dashboards em tempo real, modelos preditivos, otimização automática. É poderoso. É útil. E é exatamente por isso que o instinto virou o recurso mais raro do mercado. Qualquer empresa pode comprar acesso aos mesmos dados. Nenhuma pode comprar suas borboletas.

O problema não é que as empresas brasileiras usam dados demais. O problema é que muitas delas pararam de confiar em qualquer coisa que não apareça numa planilha. E aí a criatividade vira decoração. Bonita e inofensiva. E perigosamente ineficaz. Os maiores saltos que eu vi não vieram de dashboards. Vieram de alguém com coragem de responder de um jeito que os números ainda não sabiam nomear. Dados te dizem o que o mundo foi. Instinto te diz o que ele pode ser. A diferença entre os dois é onde vivem as ideias que importam.

Suas borboletas sabem o caminho.

Felipe Blank, diretor de cena da Ilha Crossmídia

Fonte: https://clubedecriacao.com.br/ultimas/o-espaco-e-seu-711/

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